1. EDITORIAL 13.3.13

"A CONSTRUO DO CHAVISMO"
 Carlos Jos Marques, diretor editorial

A figura pitoresca e ao mesmo tempo carismtica de Hugo Chvez nunca conseguiu mascarar seus pendores  vilania e ao autoritarismo. O lder venezuelano foi notado por suas vrias faces no decorrer do longo e conturbado governo de 14 anos, entre golpes, plebiscitos e ofensas  Constituio vigente. Venerado por alguns, criticado por muitos, Chvez fez da autocracia, do culto  personalidade e do populismo suas bandeiras de poder. Ao mesmo tempo que afrontava instituies democrticas, praticava arbitrariedades contra meios de comunicao, ataques ao Judicirio e casusmos no processo eleitoral, promovia um louvvel trabalho social de resgate de cidados da pobreza e da misria extrema. Chvez era o perfeito retrato do lder populista e retrgrado. Implodiu com a economia nacional, suprimiu liberdades, estatizou a torto e a direito, desequilibrou contas pblicas, tripudiou sobre crticos, construiu inimigos imaginrios  os EUA o maior deles , mas marcou sua administrao principalmente pela monumental transferncia de renda, levada a cabo atravs de programas de educao, sade e revitalizao de favelas. Chvez retira-se de cena como mito aos olhos de seus seguidores e ditador implacvel na viso dos opositores ao seu regime. Muitos falam na perpetuao do chavismo, nos moldes em que deitaram razes por essas bandas correntes polticas como a do peronismo e a do getulismo. Qual a essncia de tais modelos? Em todos eles  difcil no perceber a marca do caudilho. O martrio pela doena ajuda a endeusar o personagem e coloca quase como imbatvel para suced-lo no posto aquele que ele escolheu pessoalmente s vsperas da morte: Nicols Maduro  um preposto, mero seguidor, sem a liderana e o carisma do padrinho. O drama da Venezuela, nesse cenrio, segue adiante. O pas que vive basicamente do petrleo, com a economia dilapidada e nenhum planejamento de longo prazo, pode mergulhar numa era de incertezas. A inflao mostra-se descontrolada, beirando os 30% ao ano, o desabastecimento ocorre em escala geomtrica e o dficit pblico anda nas alturas. So, por isso mesmo, remotas as chances de a Venezuela retornar ao trilho do crescimento e evitar uma ruptura social. J era essa a realidade na gesto Chvez, mas ele encobria o dramtico quadro com suas aes de natureza assistencialista. Com o modelo perto do esgotamento devido s dificuldades de caixa, muitos podem vir a ter saudades da era Chvez. Assim, de uma maneira ou de outra, a memria e fora do caudilho tendem a engrossar o caldo de admirao por seus feitos, mantendo mais vivo do que nunca o chavismo em curso.

